domingo, 25 de maio de 2008

Artigo de Pedro do Couto na Tribuna da Imprensa

Fluminense, o brilho que a Globo não viu.

Foi brilhante sob todos os aspectos, na tática, na técnica, na disposição de luta, a vitória do Fluminense sobre o São Paulo na noite de quarta-feira, que emocionou sua torcida na qual me integro. Foi um episódio de garra, de empenho, de amor à camisa, como há tempo não se via no Maracanã. Por isso, senti com surpresa o tratamento frio, distante, com que a transmissão da rede Globo focalizou a atuação do time e até mesmo o resultado final, conquistado dramaticamente aos 46 minutos do segundo tempo, nos acréscimos portanto.
O narrador, Cléber Machado, passou o jogo todo colocando sempre em destaque as perspectivas e o desempenho do São Paulo, de forma tão acentuada que, penso eu, terminou inibindo o comentarista Paulo Roberto Falcão. Este, titular da seleção brasileira de 82, conhece o futebol a fundo, é articulado e sabe colocar bem as observações. Mas na quarta-feira não fez isso. Fiquei com a impressão que a rede Globo estava mais preocupada com o mercado publicitário paulista. Nem tanto quanto ao plano financeiro, talvez mercadológico pela dimensão do estado. Errou por isso. Em matéria de futebol, não se pode confundir as coisas.
Não dá certo. Nunca deu. Veja-se o exemplo, a escalação de Ronaldo Fenômeno na final de 98 contra a França. Não tinha condições, especialmente psicológicas. Mas o contrato com a Nike impunha. Perdemos o jogo, levamos um banho. Podíamos hoje ter conquistado seis vezes a Copa do Mundo. Mas ficamos no penta. O futebol é uma paixão, sobretudo. O aspecto comercial vem em decorrência. É um efeito legítimo, sem dúvida, porém secundário. Não é o impulso fundamental do esporte mais fascinante inventado até hoje. O futebol representa até a melhor síntese da aventura humana. Os torcedores, assim, estão sempre na véspera do sonho. Não se enganam. A Rede Globo se enganou nesta etapa da Libertadores.
Embalado pelo público que compareceu em massa ao estádio Mário Filho, apesar de a partida ser transmitida pela Globo e pela Bandeirantes, precisando de vitória, o Fluminense partiu para cima do São Paulo. O time era outro, diferente daquele que uma semana antes havia perdido no Morumbi por um a zero. Foi firme à frente.
No primeiro tempo, gol de Washington acendendo a esperança de classificação, já que a diferença de um gol levaria a decisão da quarta-de-final para os pênaltis. Poderia ser uma alternativa. A torcida tricolor, muito grande, terceira do Rio e segunda em termos nacionais, estava satisfeita com a hipótese. Afinal de contas, o Fluminense enfrentava a melhor equipe do País, sem dúvida, tricampeã do Brasileirão, que inclusive no ano passado, 2007, conquistou o título com semanas de antecedência.
Um time fortíssimo, bem treinado por Muricy Ramalho, cheio de craques, sempre impondo um ritmo forte às disputas. Por tudo isso, o São Paulo, com razão, era o favorito. Franco favorito, jogava pelo empate no Rio. O desempenho do Fluminense, por todas essas razões, foi de fato heróico. A noite de 21 de maio tornou-se uma das belas jornadas nos 106 anos de história do Clube. Participei das comemorações do cinqüentenário, em 52, e do centenário em 2002. Pedi às minhas filhas Tatiana e Vanessa que me representassem nos 150 anos, portanto em 2052. Mas este é outro assunto.
Falei em tática, no ceticismo do narrador Cleber Machado, na ausência de comentários de Falcão. Um desastre jornalístico. Motivos não faltaram. O primeiro deles Falcão não podia ter se omitido. Prejudicou milhões de telespectadores.
O Flu vencia por um a zero. Eram quase vinte minutos do segundo tempo. Renato Gaúcho substitui o armador Arouca pelo atacante Dodô. Muito hábil, bom chutador, mas que não exerce funções defensivas. Dodô não volta para fechar o espaço quando a equipe está sendo atacada e hoje, no futebol moderno, o retorno é fundamental. Resultado: perdemos o domínio do meio campo e surgiram espaços junto a nossa área.
Renato Gaúcho, portanto, havia abandonado o projeto de levar a decisão para os pênaltis e passava a apostar tudo numa vitória por dois gols de diferença. A mudança de estilo era enorme. O que disse Roberto Falcão sobre ela? Nada. Absolutamente nada. Como é possível um profissional como ele, inclusive com sua experiência prática, foi extraordinário jogador de meio campo, poder deixar de comentar a passagem? Além disso, não interpretou um erro na atuação do São Paulo, sempre muito importante no futebol. A equipe do Morumbi centralizou suas ações ofensivas em Adriano. Isso nunca deu certo. Futebol é conjunto.
O goleador, caso daquele que tem o nome de um imperador romano pode e deve sobressair no conjunto, não predominar sobre este mesmo conjunto. Assistindo futebol desde 1941, poderia dar uma série de exemplos. Não vale a pena. A afirmação, para quem acompanha e conhece futebol é forte por si.
Outro aspecto não analisado por Falcão e ignorado por Cléber Machado: o Fluminense marcou a saída de bola do São Paulo e Tiago Neves, articulador do time, passou a jogar mais pela esquerda, o que é lógico, pois ele é canhoto. Como Gérson, Rivelino, Jair da Rosa Pinto. O canhoto, pelo lado direito, tem sempre que virar o corpo e com isso facilita a marcação. Foi assim contra o Botafogo no Estadual, foi assim contra o São Paulo, no estádio Cícero Pompeu de Toledo. Não foi assim quarta-feira, no Rio. Além disso, a cobertura defensiva do Flu foi essencial na vitória. Se eu observei tudo isso, evidentemente Falcão viu muito melhor. Porque não comentou? Um erro.
A transmissão da partida não foi um momento da Rede Globo. Houve mais torcida do que profissionalismo. Uma pena.Está devendo isenção. Fica para a proxima.

Nenhum comentário: